Já não tinha motivos para ficar
ali. A casa sombria, cercada de ervas daninhas, arrasada pelo pó, a maioria dos
móveis destruídos, um cheiro forte de mofo e de umidade, mas permanecia ali.
Tão sombrio quanto a casa.Seguia o script pós furacão, já decorado de tão
conhecido. Estava no ato “afundando dentro de si mesmo”, interpretando tudo com
um talento incomum.
Olhou em volta. Incomodou-se com
o cheiro e com aquele fardo que é a pena de si mesmo. Caminhou pela casa destroçada.
Havia tantas coisas bonitas por ali, como aquele toca disco que cultivou com
tanto cuidado, que sempre enchia sua sala com aquele som intimista de passado. Sua
xícara de café, sua máquina de escrever, seus cadernos espalhados por todos os
cômodos, tudo que era seu abandonado, esquecido, pela única pessoa que não
poderia deixá-los.
Que injusto! Sempre que era
abandonado se condenava a um abandono e a uma tristeza ainda maior, a um exílio
dele mesmo, sob o falso pretexto de proteção. Erguia uma fortaleza tão grande
ao seu redor, que nada de bom ou de ruim lhe atingia, isso mesmo, nem nada de
bom o atingia. Ele se auto-destruía para destruir os sentimentos e as
lembranças que o atormentavam, que preço! Não percebia que tudo que morre deixa
uma herança, um sinal de recomeço.
O jardim era o que mais o
entristecia, nem o sol ousava toca-lo. Nenhum cuidado, nenhuma cor, nenhum
sinal de vida. Lembrou-se:
- Eu gosto de flores.
- Então porque não tem um
jardim!? Espaço tem aqui, e muito. – Ela disse tocando-lhe o coração.
- É algo que exige muito cuidado.
Não sirvo para cuidar de nada. Vou acabar deixando-as morrer.
- As vezes elas só precisam de uma
chance.
Ele sorriu triste, os olhos
marejados. Deu uma chance para as flores e para ela, e cresceu tudo junto no
seu coração. Ela foi uma paciente jardineira que cultivou um jardim inteiro no
coração dele, lhe ensinou a recomeçar, a cuidar-se, a exercitar a calma e a
paciência. Ela se foi e ele deixou o jardim morrer.
Por que a gente deixa morrer as
coisas boas que as pessoas cultivam em nós!? Ela apenas teve que seguir o
caminho dela, que não era o dele, por que ele tinha que recomeçar esse infindo
processo de auto-destruição para desgrudá-la da sua vida e do seu coração!?
Mesmo naquele jardim abandonado
havia ainda uma flor pequenina que resistia, a nascer colorida. Ela só queria
uma chance de ver o sol, de crescer e de encher o coração de alguém com a sua
beleza. Ele cuidou da flor, e tirou tudo que sufocava seu jardim, tudo que
havia morrido, e as ervas que não deixavam outras flores crescerem. No fim do dia
só sobrou terra fofa e a pequena flor. “Agora é com a gente, florzinha.” Ele
sorriu com o pensamento.
Dentro de casa o clima de filme
de terror continuava o mesmo. Mas ele estava mais leve, e sorriu com esse
pensamento também. Olhou ao redor e aquela casa era toda feita de lembranças,
dele e de todas as pessoas que ele fez questão de matar, depois da partida.
Havia muitas coisas desnecessárias e sem sentido algum, que começou a encaixotar
sem medo. Coisas que nunca usou, mas que continuava ali sob o pretexto de um
dia lhe seriam úteis, como a mágoa, por exemplo.
Achou as cartas que escreveu para
ela durante todos esses dias. Seus olhos voltaram a inundar. Ela sempre lhe
causava esse estranho efeito. Sentia sua falta lhe doer as costelas, como frio.
Mas não ficaria mais triste, não havia nada de triste nas lembranças que tinha
dela. O que teria de mal se ele continuasse a cultivar a pessoa a qual ela deu
uma chance!? Matar essa pessoa não lhe traria ela de volta, tão pouco lhe
diminuiria a dor, só faria tudo mais difícil com um luto desnecessário.
Se olhou no espelho. O único que
continuava ali não importa o que se passasse, ele mesmo. Ainda assim o mais
maltratado, o mais sufocado, o menos amado, o menos compreendido. Como ele podia
se condenar assim a tanto sofrimento!? Como ele podia esperar que alguém lhe
fizesse feliz, quando ele mesmo não lhe dava essa oportunidade!?
- Eu preciso de uma Chance. Você
tem. Vá em frente.
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