domingo, 1 de junho de 2014

Poeta Desconexo: Mudança

Já não tinha motivos para ficar ali. A casa sombria, cercada de ervas daninhas, arrasada pelo pó, a maioria dos móveis destruídos, um cheiro forte de mofo e de umidade, mas permanecia ali. Tão sombrio quanto a casa.Seguia o script pós furacão, já decorado de tão conhecido. Estava no ato “afundando dentro de si mesmo”, interpretando tudo com um talento incomum.
Olhou em volta. Incomodou-se com o cheiro e com aquele fardo que é a pena de si mesmo. Caminhou pela casa destroçada. Havia tantas coisas bonitas por ali, como aquele toca disco que cultivou com tanto cuidado, que sempre enchia sua sala com aquele som intimista de passado. Sua xícara de café, sua máquina de escrever, seus cadernos espalhados por todos os cômodos, tudo que era seu abandonado, esquecido, pela única pessoa que não poderia deixá-los.
Que injusto! Sempre que era abandonado se condenava a um abandono e a uma tristeza ainda maior, a um exílio dele mesmo, sob o falso pretexto de proteção. Erguia uma fortaleza tão grande ao seu redor, que nada de bom ou de ruim lhe atingia, isso mesmo, nem nada de bom o atingia. Ele se auto-destruía para destruir os sentimentos e as lembranças que o atormentavam, que preço! Não percebia que tudo que morre deixa uma herança, um sinal de recomeço.
O jardim era o que mais o entristecia, nem o sol ousava toca-lo. Nenhum cuidado, nenhuma cor, nenhum sinal de vida. Lembrou-se:
- Eu gosto de flores.
- Então porque não tem um jardim!? Espaço tem aqui, e muito. – Ela disse tocando-lhe o coração.
- É algo que exige muito cuidado. Não sirvo para cuidar de nada. Vou acabar deixando-as morrer.
- As vezes elas só precisam de uma chance.
Ele sorriu triste, os olhos marejados. Deu uma chance para as flores e para ela, e cresceu tudo junto no seu coração. Ela foi uma paciente jardineira que cultivou um jardim inteiro no coração dele, lhe ensinou a recomeçar, a cuidar-se, a exercitar a calma e a paciência. Ela se foi e ele deixou o jardim morrer.
Por que a gente deixa morrer as coisas boas que as pessoas cultivam em nós!? Ela apenas teve que seguir o caminho dela, que não era o dele, por que ele tinha que recomeçar esse infindo processo de auto-destruição para desgrudá-la da sua vida e do seu coração!?  
Mesmo naquele jardim abandonado havia ainda uma flor pequenina que resistia, a nascer colorida. Ela só queria uma chance de ver o sol, de crescer e de encher o coração de alguém com a sua beleza. Ele cuidou da flor, e tirou tudo que sufocava seu jardim, tudo que havia morrido, e as ervas que não deixavam outras flores crescerem. No fim do dia só sobrou terra fofa e a pequena flor. “Agora é com a gente, florzinha.” Ele sorriu com o pensamento.
Dentro de casa o clima de filme de terror continuava o mesmo. Mas ele estava mais leve, e sorriu com esse pensamento também. Olhou ao redor e aquela casa era toda feita de lembranças, dele e de todas as pessoas que ele fez questão de matar, depois da partida. Havia muitas coisas desnecessárias e sem sentido algum, que começou a encaixotar sem medo. Coisas que nunca usou, mas que continuava ali sob o pretexto de um dia lhe seriam úteis, como a mágoa, por exemplo.
Achou as cartas que escreveu para ela durante todos esses dias. Seus olhos voltaram a inundar. Ela sempre lhe causava esse estranho efeito. Sentia sua falta lhe doer as costelas, como frio. Mas não ficaria mais triste, não havia nada de triste nas lembranças que tinha dela. O que teria de mal se ele continuasse a cultivar a pessoa a qual ela deu uma chance!? Matar essa pessoa não lhe traria ela de volta, tão pouco lhe diminuiria a dor, só faria tudo mais difícil com um luto desnecessário.
Se olhou no espelho. O único que continuava ali não importa o que se passasse, ele mesmo. Ainda assim o mais maltratado, o mais sufocado, o menos amado, o menos compreendido. Como ele podia se condenar assim a tanto sofrimento!? Como ele podia esperar que alguém lhe fizesse feliz, quando ele mesmo não lhe dava essa oportunidade!?

- Eu preciso de uma Chance. Você tem. Vá em frente.