domingo, 6 de julho de 2014

Poeta Desconexo: Reinauguração

Um dos maiores clichês da vida é essa história de "um dia depois do outro", ou de que "o tempo cura tudo". Tem gente que repete essas coisas como um mantra. Tem gente que, de tão arrogante, despreza a lição dessa batida fórmula popular de como se levar uma vida da melhor maneira possível. Era nisso que ele pensava naquela manhã enquanto continuava a arrumar a casa.

E aquela arrumação já durava meses. Era um sacrifício imensurável se livrar de certas caixas, de certas coisas, que ele sabia inúteis, mas que cultiva com um esmero incompreensível. Até que um dia acordava rindo de si mesmo, com um incomodo profundo daquela caixa no meio da sala, que o fazia tropeçar e derramar o chá, e jogava a caixa fora com uma satisfação que parecia que tinha acabado de descobrir a fórmula da felicidade. E tinha, a fórmula de sua própria felicidade: doses homeopáticas de auto conhecimento e paciência. 

Naquele dia ele aprendeu que ele precisava sentir, antes de agir. Não que já não soubesse disso, mas "sentir, antes de agir" era um paradoxo instintivo difícil de lidar. Pois se de um lado, agir seria uma reação quase instintiva do sentir, por outro, era inegável que por conta da sua intensidade - e ele era intenso como uma sonata de Beethoven - esse sentir às vezes lhe proporcionava momentos de profunda letargia.
- Que complicado! Como você espera que alguém lhe decifre!? - ele falou em voz alta em tom de gozação.

Outra coisa que aprendeu nesse meio tempo, que lhe fazia um bem danado: rir de si mesmo. Deixou de ser aquele poeta que arrasta correntes por ae, uma representação fajuta de Baudelaire, para se permitir ser um pouco Bukowski e viver o que a vida da pra viver. São as tais doses homeopáticas de paciência, com a vida e com si mesmo.

Pegou um dos cadernos que estava pela sala e escreveu, numa folha qualquer, esperando que algum dia um dos alter ego's tomasse a lição para si: 

"Que mania que a gente tem de querer as coisas do nosso jeito e no nosso tempo. E essa mania nos faz perder as delícias que a vida prepara para gente, em silêncio, no seu forno a lenha. Tem coisa que se a gente apressa pra ficar pronto sola, como bolo, e perde o sabor. Tem coisa que se a gente se esmera muito pra aprontar  passa do ponto, como o peru esquecido dentro do forno. Então, meu caro, se o forno é lenha, senta e espera que o prato que vem por ae é de sabor inigualável. Tenha paciência."

Aquele rascunho de Baudelaire achava, até então, que tinha muita paciência com a vida e com si mesmo. Porém, parou para se observar por um só dia, e viu como ficava a ponto de explodir quando era contrariado. Justamente quando as coisas não saiam como ele achava que deveria: praguejava todas as gerações, amaldiçoava até o vento e levava a intolerância a níveis inalcançáveis, explodia enfim. Foi nessa hora que um de seus alter ego's começou a rir sem parar, deixando o intolerante ainda mais irritado.

- Veja o papel ridículo que você está fazendo! Quantas coisas na vida, efetivamente, saem do jeito que queremos!? E, por que, necessariamente, isso é uma coisa ruim!? Ainda que não possamos ver, imediatamente, as maiores tragédias podem gerar frutos que jamais colheremos ou daremos valor, porque toda tempestade, por mais destruidora que seja, deixa o solo pronto para novos frutos nascerem, quem sabe maiores, quem sabe melhores, quem sabe!?

A campainha tocou e o irritado atendeu.
- Encomenda para o senhor. - disse o entregador lhe estendendo uma caixa.
- E para o senhor é que não haveria de ser. - pegou a caixa, resmungando rabugento.
- Quem sabe!? E se agora mesmo o senhor desistisse dessa festa que vai dar e me entregasse essa caixa de vinho!? Eita que eu iria beber de graça o resto do mês!  - o homem falou distraído, com uma tolerância comovente, que derreteu o mau humor do irritadiço.
- Eu só não te convido para beber de graça, nessa festa, porque ela é, digamos assim, privada. - respondeu o poeta com leveza.
- Hummm. Entendo perfeitamente, senhor. Mas eu posso voltar outro dia. Não vou mentir, adoro beber de graça, ainda que tenha que levar desaforo pra casa. - falou o homem sorrindo.
- Pois volte, vai encontrar um homem melhor, todo dia tem um homem diferente nessa casa, é uma loucura.
- Que coisa boa, assim nunca se cai na rotina, nem se morre de tédio. Que sorte a sua! Veja eu, um entregador comum, que não brigo por nada nesse mundo, nem por minha felicidade! Sou um mingau morno, sem gosto e sem emoção! - falou orgulhoso.

- Que inveja! Já parou para pensar quantas pessoas só precisam de um mingau morno para dormir tranquilas!? Não pensa que é esquentando o mingau que a felicidade vai chegar, porque vai que o mingau queima!?. Veja você: Eu  sou um taco apimentado, difícil de digerir.

- Mas é o que o senhor ta dizendo: tem paladar para tudo! Não tenho pressa, isso é bom e é ruim. E eu so preciso aprender a viver com isso. E o senhor também. Agora tenho que ir, o senhor vive de poesia, e eu de entregas. Tenha um bom dia.

O poeta ficou la, com a porta entreaberta, vendo aquele homem desengonçado subindo na bicicleta de entregas assobiando uma canção antiga. Um homem comum e cheio de clichês, lhe trouxe uma encomenda muito mais valiosa do que aquela caixa, deixou um mapa para ele continuar firme naquela expedição, naquela caça ao tesouro, por dentro de si mesmo. E nesse mapa tinha uma bussola que dizia: aprenda a conviver consigo mesmo, tenha o gosto que tiver, frio ou quente, mal passado ou queimado, aprenda a se apreciar.

Terminou de se arrumar e se olhou no espelho. Estava bonito e pronto para a festa. Ele sempre detestara espelhos, na mesma proporção que detestava fotos, e pelo mesmo motivo: ambos captavam coisas dele que ele não gostava, seus defeitos! Mas só agora ele via como alguns desses defeitos, que ele teimava em esconder, lhe caiam tão bem. Ficou se apreciando no espelho demoradamente, uma nova sensação nascia ali: se sentir. 

Desceu as escadas animado, fogos de artifício explodiam dentro dele, como se estivesse acabado de se apaixonar. E talvez tenha mesmo. Escolheu uma música: Chandelier, Sia, combinava perfeitamente com seu estado e espírito! Enquanto as primeiras notas invadiam a sala ele abria a caixa que o entregador trouxe mais cedo: uma dúzia do melhor vinho da região. O cheiro do vinho misturou-se à voz daquela cantora, já embriagando-o. Estava irremediavelmente apaixonado, pois tudo naquele momento tinha uma intensidade surreal: a música, o cheiro do vinho, a forma que aquele líquido transbordou pelo seu corpo depois do primeiro gole. Ele dançava totalmente desengonçado, dançar nunca foi o seu forte e ele se envergonhava disso, mas naquela noite ele era o melhor dançarino da festa. Era uma noite de festa, era sua reinauguração, e ele era o convidado de honra. 



Todos os móveis da sala assistiam-no boquiabertos. Até a noite parou para observá-lo, no meio da sala, dançando feito louco, sentindo cada parte do seu corpo viva. Uma gargalhada ecoou pela casa vazia, e ele tombou no sofá, cansado, exausto e feliz: estava apaixonado por si mesmo, e aquele era o primeiro encontro, a noite seria mágica!

domingo, 1 de junho de 2014

Poeta Desconexo: Mudança

Já não tinha motivos para ficar ali. A casa sombria, cercada de ervas daninhas, arrasada pelo pó, a maioria dos móveis destruídos, um cheiro forte de mofo e de umidade, mas permanecia ali. Tão sombrio quanto a casa.Seguia o script pós furacão, já decorado de tão conhecido. Estava no ato “afundando dentro de si mesmo”, interpretando tudo com um talento incomum.
Olhou em volta. Incomodou-se com o cheiro e com aquele fardo que é a pena de si mesmo. Caminhou pela casa destroçada. Havia tantas coisas bonitas por ali, como aquele toca disco que cultivou com tanto cuidado, que sempre enchia sua sala com aquele som intimista de passado. Sua xícara de café, sua máquina de escrever, seus cadernos espalhados por todos os cômodos, tudo que era seu abandonado, esquecido, pela única pessoa que não poderia deixá-los.
Que injusto! Sempre que era abandonado se condenava a um abandono e a uma tristeza ainda maior, a um exílio dele mesmo, sob o falso pretexto de proteção. Erguia uma fortaleza tão grande ao seu redor, que nada de bom ou de ruim lhe atingia, isso mesmo, nem nada de bom o atingia. Ele se auto-destruía para destruir os sentimentos e as lembranças que o atormentavam, que preço! Não percebia que tudo que morre deixa uma herança, um sinal de recomeço.
O jardim era o que mais o entristecia, nem o sol ousava toca-lo. Nenhum cuidado, nenhuma cor, nenhum sinal de vida. Lembrou-se:
- Eu gosto de flores.
- Então porque não tem um jardim!? Espaço tem aqui, e muito. – Ela disse tocando-lhe o coração.
- É algo que exige muito cuidado. Não sirvo para cuidar de nada. Vou acabar deixando-as morrer.
- As vezes elas só precisam de uma chance.
Ele sorriu triste, os olhos marejados. Deu uma chance para as flores e para ela, e cresceu tudo junto no seu coração. Ela foi uma paciente jardineira que cultivou um jardim inteiro no coração dele, lhe ensinou a recomeçar, a cuidar-se, a exercitar a calma e a paciência. Ela se foi e ele deixou o jardim morrer.
Por que a gente deixa morrer as coisas boas que as pessoas cultivam em nós!? Ela apenas teve que seguir o caminho dela, que não era o dele, por que ele tinha que recomeçar esse infindo processo de auto-destruição para desgrudá-la da sua vida e do seu coração!?  
Mesmo naquele jardim abandonado havia ainda uma flor pequenina que resistia, a nascer colorida. Ela só queria uma chance de ver o sol, de crescer e de encher o coração de alguém com a sua beleza. Ele cuidou da flor, e tirou tudo que sufocava seu jardim, tudo que havia morrido, e as ervas que não deixavam outras flores crescerem. No fim do dia só sobrou terra fofa e a pequena flor. “Agora é com a gente, florzinha.” Ele sorriu com o pensamento.
Dentro de casa o clima de filme de terror continuava o mesmo. Mas ele estava mais leve, e sorriu com esse pensamento também. Olhou ao redor e aquela casa era toda feita de lembranças, dele e de todas as pessoas que ele fez questão de matar, depois da partida. Havia muitas coisas desnecessárias e sem sentido algum, que começou a encaixotar sem medo. Coisas que nunca usou, mas que continuava ali sob o pretexto de um dia lhe seriam úteis, como a mágoa, por exemplo.
Achou as cartas que escreveu para ela durante todos esses dias. Seus olhos voltaram a inundar. Ela sempre lhe causava esse estranho efeito. Sentia sua falta lhe doer as costelas, como frio. Mas não ficaria mais triste, não havia nada de triste nas lembranças que tinha dela. O que teria de mal se ele continuasse a cultivar a pessoa a qual ela deu uma chance!? Matar essa pessoa não lhe traria ela de volta, tão pouco lhe diminuiria a dor, só faria tudo mais difícil com um luto desnecessário.
Se olhou no espelho. O único que continuava ali não importa o que se passasse, ele mesmo. Ainda assim o mais maltratado, o mais sufocado, o menos amado, o menos compreendido. Como ele podia se condenar assim a tanto sofrimento!? Como ele podia esperar que alguém lhe fizesse feliz, quando ele mesmo não lhe dava essa oportunidade!?

- Eu preciso de uma Chance. Você tem. Vá em frente.